Este blog tem como objetivo fazer a divulgação do produto educacional "O Jogo do Espião", produzido no âmbito do Programa de Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT) do IFTO - Campus Palmas. Espera-se que por meio deste canal professores de todo o país possam ter acesso ao jogo bem como orientações para aplicá-lo em sala de aula.
A ideia de criar este blog surgiu no decorrer da disciplina eletiva EDUCAÇÃO E TECNOLOGIAS sob a orientação do professor Dr. Claudio Monteiro do IFTO-Palmas.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Do lúdico à educação: Uma preparação para a vida

        Tão importante quanto trabalhar, se divertir, se distrair, ter momentos de ócio são elementos essenciais para o gozo de uma vida plena (DE MASI, 2000). Todas as sociedades em diferentes épocas sempre buscaram nas atividades lúdicas elementos que pudessem oferecer condições para melhorar o estado psíquico entre os cidadãos e o convívio social entre os diferentes povos, influenciando positivamente no desenvolvimento afetivo, físico, social e moral daqueles que jogam. Note-se que a música e a poesia são jogos de palavras; a dança e o teatro são jogos de expressão corporal; corridas, lutas, competições de um modo geral, são jogos que expressam domínio do corpo e saúde física. Essas atividades já foram evidenciadas em todas as culturas e estão historicamente enraizados na própria natureza do homem, a sociedade sempre desenvolveu diversas formas lúdicas para os mais variados fins, como relata Ortiz:

O jogo é um fenômeno antropológico que se deve considerar no estudo do ser humano. É uma constante em todas as civilizações, esteve sempre unido à cultura dos povos, à sua história, ao mágico, ao sagrado, ao amor, à arte, à língua, à literatura, aos costumes, à guerra. O jogo serviu de vínculo entre povos, é um facilitador da comunicação entre os seres humanos. (ORTIZ, 2005, p. 9)

        Assim, podemos perceber que os jogos e as atividades lúdicas são um elemento cultural imanente da sociedade, talvez por isso, existam uma grande variedade de jogos que atenderam ou atendem a fins diversos. Em especial explorar o potencial dos jogos como preparativo para o mundo do trabalho tem sido um estratagema utilizado desde as civilizações mais antigas. Sendo as crianças ainda imaturas – física e psicologicamente – para a realização de atividades laborais mais complexas é necessário prepará-las desde a infância para o mundo adulto, assim o jogo se mostra como um exímio artifício para esse fim. É nesse aspecto que o uso de jogos encontra uma utilidade imprescindível para o crescimento e o desenvolvimento das funções psicomotoras necessárias a qualquer pessoa. No que tange aos procedimentos e estratégias de ensino, o uso de jogos também foi uma das maneiras utilizadas pelos índios brasileiros – ainda no período colonial – para educar e preparar suas crianças para a vida adulta, conforme relata Saviani:

Os meninos não podiam, ainda, acompanhar os pais; mas recebiam deles arcos e flechas e formavam, com outras crianças da mesma idade, grupos infantis nos quais, informalmente, se adestravam no uso do arco e da flecha, além de muitos outros tipos de folguedos e jogos, entre os quais se destacava a imitação dos pássaros. (SAVIANI, 2008, p. 36)

 Desse modo é na infância que devem começar a se destacar os primeiros processos formativos do cidadão, é nesse período que se deve iniciar o ‘treinamento’, a inculcar os primeiros valores que a sociedade deseja que os futuros cidadãos tenham. Quanto maior tempo dedicado a esse treinamento melhor será o desenvolvimento do futuro cidadão, com efeito o jogo e as atividades lúdicas cumprem essa função no que diz respeito às crianças. O jogo é útil porque elas não podem trabalhar como os adultos, para a criança brincar de pintar, correr, construir casas, consertar coisas, jogar bola são atividades tão sérias quanto qualquer trabalho desempenhado pelo adulto. Nesse sentido aproveita-se o jogo para instruir e construir as premissas necessárias para o mundo adulto, o jogo cumpre uma função social de antecipação das ocupações sérias. É através do jogo que se pode começar a entender as regras de convívio, a aceitação das diferenças, o respeito ao outro, compreende-se que vencer e perder são situações naturais que frequentemente podem ocorrer. Com o jogo a criança aprende a lidar com o sucesso e a frustação, entende que para ganhar é preciso dominar técnicas, desenvolver novas habilidades além de aprender coisas novas. Visto dessa maneira, o jogo tem potencialidades que contribuem para moldar a personalidade e ajudam a construir a autonomia da pessoa humana, como pode ser observado na fala de Chateau:

O jogo representa, então, para a criança o papel que o trabalho representa para o adulto. Como o adulto se sente forte por suas obras, a criança sente-se crescer com suas proezas lúdicas. [...] A criança colocada à margem dos trabalhos reais e sócias acha um substituto no jogo. Daí a importância primordial do jogo de nossas crianças. Uma criança que não quer brincar/jogar, é uma criança cuja personalidade não se afirma, que se contenta com ser pequena e franca, um ser sem determinação, sem futuro. (CHATEAU, 1987, p. 29)

              É por meio do jogo que os mais jovens tendem a imitar os adultos, ao brincar de médico ou de construir casas, eles aguçam seu desejo em saber mais sobre estas profissões, começam a delinear os primeiros traços que podem formar sua futura ocupação. Assim o jogo se torna uma espécie de estratégia dotada de sentido prático, é a transfiguração para o mundo que ela deseja ter, é a materialização de suas aspirações ainda impossíveis. Ciente desse potencial, o homem e a sociedade como um todo tem explorado esses aspectos fazendo do jogo um substituto, um preparativo para o mundo do trabalho, como no exemplo dos índios brasileiros, as brincadeiras visavam a preparação para a formação do futuro caçador, provedor da família e da tribo. A sagacidade em usar os jogos como uma estratégia de ensino consiste justamente no fato de inculcar suavemente e progressivamente na mente das pessoas, principalmente nas mais jovens, os valores sociais, os princípios morais e éticos que cada sociedade traz consigo. Ainda que não seja de maneira formal a brincadeira e o jogo realizado em casa ou fora dos muros de uma escola tem sim um papel pedagógico, para Chateau (1987, p. 124) “é muito claro que o jogo não exercita apenas os músculos, mas a inteligência” independentemente do local ou cultura em que estejam inseridos. O jogo educa os sentimentos e os anseios mais impulsivos da pessoa, pois ao jogar ela está sujeita a um código, a regras preestabelecidas que foram aceitas por todos, ganhando ou perdendo as normas devem ser respeitadas sob a penalidade do julgo dos demais participantes, vê-se aqui a aceitação tácita das leis que regem as condutas sociais.
             Outrossim o jogo tem características muito semelhantes ao que encontramos na escola, ele é um provedor de interações sociais capazes de proporcionar variadas oportunidades de aprendizagem. Quando o professor solicita a resolução de uma atividade, uma tarefa, a criança ou o jovem a vê como um desafio a ser superado, ora, no jogo as pessoas são constantemente desafiadas a resolver algo, a realizar uma tarefa. Desse modo, o jogo anterior ao mundo da escola já ensina as pessoas a se socializar, a entender o que é uma tarefa, ensina-nos o que é um desafio, que o sucesso é alcançado superando desafios. A escola está a todo momento colocando novos “obstáculos” para que os estudantes o superem, isso é algo intrínseco do jogo, daí o motivo pelo qual o jogo está sempre sendo conclamado como um excelente elemento pedagógico, há inúmeras formas e maneiras de aproveitá-lo na sociedade e na escola.

        No que tange aos aspectos pedagógicos mais especificamente voltados à educação formal há relatos do uso de jogos pelos pensadores desde a Grécia antiga, “Platão já acreditava na ação dos jogos educacionais ao ensinar seus “discípulos”, através de jogos com palavras e/ou jogos lógicos (dialética)” (GRANDO, 2000, p. 2). Assim parece mister que a utilização de jogos desempenha, a muito tempo, uma função educativa formal. Para Ortiz (2005, p. 9) “o jogo deve ser utilizado como meio formativo na infância e na adolescência. A atividade lúdica é um elemento metodológico ideal para dotar as crianças de uma formação integral”.
      Na Base Nacional Comum Curricular - BNCC (2017), preconiza que os jogos são atividades que devem explorar a criatividade e o respeito às regras, pela obediência, bem como o desenvolvimento do ato de lúdico. Dessa maneira é notório que ao longo de sua história o ser humano sempre praticou atividades recreativas que lhe servem de distração, entretenimento, relaxamento de outras atividades consideradas mais sérias. Os jogos fazem parte da própria história do homem enquanto ser social, necessita desses instrumentos interagir com seus pares se mantendo saudável física e psicologicamente. Assim, natural ou propositalmente todo esse potencial formativo e preparativo vergou-se para finalidades pedagógicas explicitas, para se ensinar matemática por exemplo. As vivências do jogo pressupõem um enriquecimento integral do homem em suas distintas formas.

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